Há tantas coisas que eu gostaria de dizer, mas eu não tenho palavras. Elas eram tão mais fáceis de encontrar um punhado de tempo atrás. Eram fluidas, vinham em uma sequência inesgotável e eu tinha que fazer pouco ou nenhum esforço. Mas agora nada parece suficiente. Tudo que eu digo parece ter um tom dramático demais que ninguém vai querer ler. Toda nota parece fora de tom. Nada que eu faço é suficiente. Suficientemente bom, suficientemente inédito, suficientemente forte. É como meus músculos fatigando após um tempo de peso, deixando tudo cair por terra mesmo que meus impulsos nervosos demandem o contrário. E eu fico incapaz. De manter todos os buracos fechados, de suturar todas as feridas, de manter todo o sistema em relativo equilíbrio.
Foge do meu controle. Eu não tenho energia. Eu não tenho coragem. E eu continuo sem palavras. Um vocabulário tão insuficiente quanto eu.
Eu fico assistindo enquanto espero o dia em que eu vou falir completamente e vai ser tão óbvio pra todo mundo que eu sou uma fraude quanto é pra mim. Fingindo que posso apoiar alguém, fingindo que posso cuidar de alguém, fingindo que eu posso fazer bem pra qualquer pessoa que seja quando eu sou tão quebrada por dentro e tem pedaços que eu até perdi, sabe Deus como eu posso colar todos de volta. É tão notório que eu não sei por quanto tempo mais eu vou conseguir esconder. Há feridas que não saram, há quem nunca seja inteiro, há discursos presos pra sempre na garganta e que nunca vão conseguir achar o seu caminho de volta.
sinônimo de amor é deixar ir (e você foi)
ainda que a minha vontade de tê-lo fosse maior do que qualquer palavra pudesse dizer, eu jamais cortaria tuas asas, amor. choveu hoje a noite, mas ainda maior que a tempestade lá fora que escorria feroz pela janela, foi o tornado que se formava aqui dentro e que destruia tudo. é a terceira noite sem você depois de muito tempo, inconscientemente, procuro a sua presença. ajoelho no chão em prece para que a dor que rasga meu peito diminua, mas deus nunca me ouve. eu me lembrei de quando você assistiu “O fabuloso destino de Amelie Poulain” pela primeira vez, daquela vez que você dormiu na minha casa e a gente se amava silenciosamente no beliche. das tardes imensas e deliciosas, dos nossos planos que mudavam todos os dias mas que permaneciam sólidos. de como a cor do teu rosto mudava quando você ficava bravo e de como a bochecha ficava rubra. da sua mão que as vezes suava, dos seus pés encostando os meus e dos seus lábios apreciando cada parte existente no meu ser. hoje eu chorei dentro do ônibus quando me lembrei de você e falei sobre você mais do que gostaria de ter feito. sua ausência e a sua presença me mostraram muitas coisas sobre o mundo, apesar do medo compulsivo que eu costumava nutrir, desbravei imensidões das quais jamais teria feito sem tua orientação descoordenada. o mundo sempre foi nosso e o som da sua risada sempre foi a única coisa que eu esperava ouvir no fim do dia, quando até os ossos enrijecidos doiam de saudade. eu chorei tomando banho também, assim como choro agora enquanto escrevo o que você não vai ler. queria tê-lo feito ficar, que estivesse apaixonado por mim como já havia feito, queria ouvir o som da tua voz me dizendo qualquer coisa. deus, dói tanto. desde os joelhos até a última terminação nervosa. tanto, tanto, tanto. eu arranquei o mapa-mundi pendurado do lado da cama que marcava onde nós já tínhamos ido), eu escondi suas fotos, mas ainda guardo a sua carta; aquela em que você diz que a minha ausência dói. parece nunca há nenhuma saída, que no fim, ainda que eu ofereça todo o resto que sobrou de mim, você sempre alçará o voô e irá partir. não há mais nada depois de você. a raiz fora arrancada e o que sobra é o que sangue que jorra da ferida. seus olhos castanhos sempre serão a minha luz favorita, mesmo que agora, eles brilhem pra outra pessoa. eu queria ter te feito ficar. eu o amo tanto que ainda te projeto antes de dormir. e tudo que sei dize é que dói tanto, tanto, tanto…
você escreve como quem vai embora e não se arrepende e não tem medo voz tato coragem você escreve em vermelho sem pausas e fôlegos e com todas as guerras você escreve como se ruminasse todas as nossas vísceras e cuspisse regurgitasse me impedisse você escreve na língua de um gato dos anjos dos poemas que você deixa de molho no ácido clorídrico do meu estômago você escreve como se o sangue não coagulasse e a literatura te engolisse você fala e fala demais mas fala de silêncios em sinos de igrejas em dias de velório e festa você diz mas não termina e corre com a palavra nas veias nos ossos no corpo e quebra os pratos dos vizinhos e deixa o cachorro morrer de fome e de sede e late e grita e tenta pular os muros de casa porque você escreve como alguém que se perdeu e não sabe como voltar
Vick é amiga de Pedro
Pedro é perdido como pena perdida
Vick o acha poeta
Pedro é só um perdido como um poema
Vick adora falar
Pedro é perdido, por isso é bom ouvinte
Vick é a melhor pessoa
Logo, Pedro que é perdido, encontra algo bom pra se falar.Vick tem uma energia ótima, agita as células de qualquer um
É do signo de aries, o ascendente já não mais importa
Pedro gosta de ser Pedro
Vick e ele são ótimos em conversas aleatórias
Logo, nunca terminam um assunto - ficam só em fragmentos
Pedro quer parar com o café
Quer parar com a vodka
Ele ama Vodka e Café
Vick é Vick - por isso tinge os cabelos de cores alegres
de fato é muito afável.Pedro faz poesia
Logo, exerce uma função inútil
Logo, me sinto parte disso também.
Não há cartas para a Vick
esses versos que se compõem
são fotografias de um dia chuvoso - abraços, cheiros, carícias, aconchegos -
calmos, como um pentear de dedos quando se faz por tempo - infância -
abrindo parênteses - Não me chamo João, mas sinto muito por Pedro.domingo, 15 de janeiro de 2017
— João Rodrigues P.